segunda-feira, 27 de julho de 2009

Resenha - O Caçador de Pipas (The Kite Runner, 2007)

[Este artigo contém revelações sobre o enredo]
Por Juliana Marton

Como toda adaptação, O Caçador de Pipas também sofreu algumas perdas, a maioria delas não prejudicou grandemente a história. Para quem já leu o livro, o filme parece um tanto incompleto, mesmo assim o filme conseguiu passar a essência do livro, e a moral da história. O foco da história é a amizade entre dois garotos afegãos, Amir, o patrão, e Hassan, o servo. Entretanto essa amizade é abalada quando Hassan é violentado por alguns garotos mais velhos que sempre o importunavam por ser hazara, uma etnia considerada inferior. Amir é um garotinho confuso, que luta pelo amor de seu Bhabha (pai), nesse meio Amir acaba prejudicando aquele que foi seu único e grande amigo, Hassan.

O filme nos leva aos Estados Unidos, em 2000, quando os primeiros exemplares do livro de Amir chegam. Logo em seguida ele recebe uma ligação de alguém que havia ficado perdido na memória, o velho amigo de seu pai, Rahim Khan, que lhe pede que volte ao Paquistão. Amir fica muito abalado, e é através de suas lembranças que o filme traz a história de sua infância no Afeganistão. A cena central do longa e que gerou as maiores discussões, é quando, após uma guerra de pipas – tradicional em Cabul – Hassan é violentado por Assef, um valentão da cidade, por sua extrema lealdade a Amir – ele não entrega a pipa que foi buscar para seu patrão. Amir assiste a tudo aquilo escondido, mas não interfere, retirando-se logo em seguida. A partir daí, os dois, antes, bons amigos, vão perdendo o contato, apesar de morarem na mesma casa.
A cena do estupro, então, vai perturbar Amir continuamente. Ele e seu pai são impelidos a fugir de Cabul para o Paquistão, em motivo da invasão russa no país, e de lá partem para os Estados Unidos, onde constroem uma nova vida, de liberdade. Nessa parte muitas coisas que se encontram no livro, são omitidas no filme. Não é mostrada a árdua adaptação a que Amir e Bhabha enfrentam. Entretanto, boa parte é suprida pelo fato de não haver maneira de se fazer cópia exata da obra. Os pensamentos de Amir continuam a levá-lo de volta àquela cidade, em especial àquela viela onde tudo aconteceu.
Durante toda a trajetória nota-se que Amir tem ressentimento, e isso se reflete na história de seu livro, Os Sultões de Cabul, especialmente neste título, no qual Amir faz alusão a uma frase que escreveu quando eram pequenos referindo-se a Hassan e ele – ‘Amir e Hassan, os sultões de Cabul’. Tudo leva a crer que a história em si é também um retrato dessa infância conturbada pela qual os dois passaram. Todavia, não é aí que se situa a crítica central do filme, mas no regime ultra-ortodoxo do Talibã que foi instaurado no Afeganistão depois da desocupação russa. Quando Amir, então retorna de seu fluxo de pensamento, ele resolve acatar ao pedido de Rahim Khan, e volta ao Paquistão.
Quando Amir chega ao Paquistão, Rahim Khan conta-lhe tudo o que aconteceu enquanto ele estava fora, e traz à luz um fato que a todos surpreende – menos a quem já havia lido o livro, é claro – Ali, pai de Hassan, era estéril, logo não poderia ter concebido Hassan. O menino era na verdade filho de Bhabha e, portanto, irmão de Amir. Rahim Khan ainda conta que Hassan fora executado pelo Talibã, e que sua esposa também, deixando assim o filho Sohrab órfão. Este trecho é de todas as formas, emocionante. Amir sai em busca de seu sobrinho, que estava abandonado em um orfanato, a fim de dar-lhe uma nova perspectiva de vida. Quando retorna ao Afeganistão, Amir se depara com a ditadura do Talibã, que é retratada de maneira trágica, com cores vívidas, a fim de mostrar a realidade de quem vive sem a perspectiva da liberdade, seja ela de culto, de expressão, etc.
Lá também, Amir encontra novamente aquele que outrora fora seu maior medo. Assef tornou-se Talibã, mas não deixou suas práticas asquerosas do passado. Quando Amir vai buscar o sobrinho no orfanato, o diretor diz que o menino não está lá, e que foi levado por um oficial que sempre passava por ali. Em troca de dinheiro, o oficial Talibã levava uma criança, e o diretor sem opções para não deixar que as crianças passassem fome, aceitava aquele dinheiro sujo, como ele mesmo apelidou. Amir então segue as informações do diretor do orfanato e chega até o tal oficial, que para surpresa é Assef. Apesar de ter tornado-se um extremista religioso, Assef ainda continuava com suas práticas asquerosas.
Marc Forster, o diretor, teve todo o cuidado com a ótima adaptação feita pelo roteirista David Benioff. Desde a escolha dos atores, até a opção por gravar tudo em dari e farsi, que são as línguas nativas da região, Forster conseguiu passar a essência do livro de Khaled Hosseini. O próprio autor do best-seller diz que, apesar de no início quando as pessoas sugeriram-lhe que se fizesse uma adaptação para o cinema não ter ficado nem um pouco entusiasmado, o resultado ficou muito bom.
É claro que, nenhuma adaptação vai conseguir superar a obra – a não ser é claro que o livro não seja bom, e a equipe realmente consiga fazer aquilo dar certo – mas o longa O Caçador de Pipas não deixou a desejar frente à magnífica obra de Khaled Hosseini. Se o livro é excelente, o filme é pelo menos ótimo, afinal a literatura não encontra empecilhos como orçamento para se construir um deslumbrante cenário, tudo acontece no campo da imaginação. E, diga-se de passagem, o cenário estava realmente deslumbrante.

Resenha elaborada em Junho de 2008.

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom post.

Anônimo disse...

Como posso pedir-lhe mais detalhes? needda post Grande saiba mais ...

Juliana Marton disse...

olá, se quiser entrar em contato comigo, comece identificando-se. (:

até logo e obrigada!