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Por Juliana Marton

terça-feira, 25 de maio de 2010

Meu conto 3

conto
Contrato de casamento
por Juliana S. Marton

Ela se virou para o outro lado da cama e acordou de repente com os olhos de João Paulo encarando-a no escuro. Soltou um leve suspiro e se aconchegou sob o braço em que ele recostava sua cabeça.

– Estava tão cansada que decidi dormir. Quando você chegou? – Sua voz mal saia dos lábios e seus olhos permaneciam fechados.

– Há pouco – respondeu passando a mão pelos cabelos da esposa. Alice abriu de leve os olhos e contemplou o marido há poucos centímetros de seu rosto.

– O que você estava fazendo aí no escuro, meu bem?

– Observando você. De repente me dei conta do quanto você é bela e de como essa beleza é vulnerável – afagou novamente os cabelos da esposa que voltou a fechar os olhos.

– Que conversa mais estranha, João Paulo. Está tudo bem com você, imagino... – seu ar era leve e despreocupado. Virou-se para olhar o relógio que estava na cômoda ao lado da cama. – O que você esteve fazendo até essa hora, afinal?

João Paulo sorriu para a esposa. Alice abriu os olhos e o encarou esperando a resposta. O quarto era iluminado apenas pelas luzes dos postes lá fora. Mas, os olhos de João Paulo brilhavam a meia luz.

– Matei uma pessoa – disse com naturalidade.

Alice sentou-se imediatamente e bateu a mão no interruptor.

– O que você disse, meu bem? – perguntou ao marido. Ele a encarava da mesma forma, ainda.

– Matei uma pessoa, querida. E você é a minha cúmplice, claro.

Alice encarou-o e perscrutou cada centímetro de seu marido antes de voltar a falar. Ele estava desalinhado, ela podia ver. Nada que fugisse à rotina das longas noites de trabalho no tribunal. Ela se aproximou mais dele e pegando seu rosto largo em suas mãos, deu-lhe um beijo.

– Oh, querido. Não tem problema... – seu timbre fino era baixo. – Tudo bem, eu entendo. Isso acontece comigo, às vezes. Venha cá – e abraçando-o, beijou-lhe outra vez.

João Paulo confortou-se no abraço da esposa.

– Sabia que você entenderia, minha querida.

– Claro que sim – e deixando o abraço – agora podemos voltar a dormir? Garanto que você não terá mais pesadelos esta noite, meu bem – seu olhar compreensivo pousou em João Paulo. – Ninguém matou ninguém e nada de mal nos acontecerá.

João Paulo segurou o braço da esposa, quando ela se virava para apagar as luzes do quarto.

– Na verdade, alguém morreu, sim. E eu o matei.

A respiração de Alice pareceu ficar pesada de repente.

– Podemos encarar como um pesadelo, claro. Se isto torna mais fácil para você, querida. Mas, o único sonho que tenho todas as noites envolve você e uma praia, você sabe... – as últimas palavras de João Paulo vieram acompanhadas de um sorriso malicioso.

– Do que você está falando? – os olhos pequenos de Alice dobraram de tamanho. João Paulo deitou-se nos travesseiros azuis.

– Está claro do que eu estou falando desde que me perguntou o que eu fazia, meu bem – João Paulo segurou a mão da mulher. – E disse que matei uma pessoa, é claro.

Os lábios de Alice tremiam. O marido trouxe a mão para o centro de seu peito ainda cingido com uma camisa e uma gravata afrouxada.

– Amor, você está começando a me assustar – Alice apertou a mão do marido. – Isto tudo é uma brincadeira, certo?

Puxou a mão que ele segurava com firmeza e se levantou da cama quente.

– Que piada de mau-gosto, João Paulo. Será que tem necessidade de me acordar às duas e meia da madrugada para me encher com histórias alucinadas? – Alice parou diante da porta do banheiro. – Quando voltar do banheiro, eu espero que você tenha uma historinha melhor para me contar, ou então que esteja, pelo menos, dormindo – fechou a porta atrás de si.

João Paulo apagou as luzes e deitou-se novamente. Logo Alice veio e se deitou ao seu lado. Ele a abraçou.

– Que bom que você esqueceu essa brincadeira, querido.

– Não é uma brincadeira, Alice.

A esposa virou-se para ele.

– João Paulo... chega, por favor. Essa conversa já está me causando arrepios. Se você queria brincar, já foi de bom tamanho.

Alice agora o olhava com súplica. João Paulo afagou-lhe os cabelos e a trouxe mais para perto.

– Eu sei, amor. Mas, esta é a verdade – ele olhou para ela com firmeza e apertou seu braço comprido. – Eu amo você e por isso contei a verdade – deslizou a mão até encontrar a mão da esposa que estava fria. – Não precisa se preocupar. Somos cúmplices. Você é meu álibi.

João Paulo sorriu para a esposa que pôde ver os dentes do marido reluzirem sob a penumbra do quarto. Alice fechou os olhos e tornou a abri-los várias vezes. Sempre se deparando com a mesma cena. João Paulo segurava sua mão, e ela já não estava tão gelada.

– Quer voltar a dormir agora? Podemos conversar mais sobre isso pela manhã e então, se desejar, conto todos os detalhes – encostou a cabeça na da mulher. Alice estremeceu.

– Isso é verdade? – As palavras soaram precisas.

– Claro que sim. Acha mesmo que eu brincaria com algo assim, querida?

Alice tornou a fechar seus olhos e desta vez demorou mais para abri-los.

– Leve o tempo que precisar, meu amor. Ainda estarei aqui – tornou a apertar a mão da esposa que ainda guardava resquícios de frieza.

Alice recuou a cabeça e soltou a mão do aperto, trazendo-a até o peito. Sentou-se na cama. Quando abriu novamente os olhos novamente, as lágrimas caíram, desenhando o traço fino do rosto.

– Não chore, querida.

João Paulo sentou-se imediatamente e, após acender as luzes, levou a mão para aparar as lágrimas da esposa. Alice recuou novamente.

– Como posso não chorar, João Paulo? – Sua voz tornara-se fina demais. – Você enlouqueceu, é a única resposta que encontro para tudo isso.

Alice levantou-se da cama e começou a caminhar em direção ao telefone. João Paulo deu um pulo na cama e alcançou a esposa, arrancando-lhe o aparelho da mão.

– O que você ia fazer, Alice? Ligar para a polícia? – Sua respiração estava rápida demais.

Alice olhou com assombro para o marido. Depois baixou a cabeça e fez o caminho de volta até a cama.

– Polícia? Você está surtado e acha que eu vou ligar para a polícia? – Sua voz trazia um quê de ironia – Ia ligar pra sua mãe, claro.

Agora quem estava assustado era João Paulo.

– Para minha mãe? – De repente ele se sentia ultrajado. – Eu mato uma pessoa e você quer ligar para minha mãe, Alice? De onde tirou essa idéia?

Alice estava sentada na cama. Seu olhar parecia vago. Sua posição dizia o contrário.

– Venha cá, meu bem... eu sei que você passa por muita pressão no tribunal. E lidar com aqueles assassinos todos os dias pode estar afetando o seu juízo.

Alice falava com amabilidade. E dando dois tapinhas na cama, convidou o marido a se sentar ao seu lado. João Paulo caminhou até a esposa ainda com o telefone nas mãos e sentou-se.

– Olha, querido. Acho que precisamos mesmo de férias. Você vinha falando disso há tempos e, por causa da loja, eu não dei ouvido – Alice segurou a mão do marido que a observava com curiosidade. – Podemos ir para o sul, você adora o sul. Ou então para outro país. Nunca fomos à Espanha, ou procuraremos uma praia e então você pode me contar sobre aquele tal sonho, que tal?

Alice parecia empolgada. Sorria efusivamente e gesticulava conforme desenhava as possibilidades. João Paulo assistiu a toda exposição da mulher. Logo, levantou e se sentou à sua frente no baú que ficava aos pés da cama. Segurando as mãos de Alice, encarou-a.

– Querida, a idéia das férias é realmente ótima. Mas, preciso que você entenda o que está acontecendo – ele baixou a cabeça e respirando fundo, retomou a fala. – Eu sei que parece inacreditável, mas foi algo inevitável e maior do que eu. Esta noite quando entrei pela porta da frente não era mais o mesmo homem. Matei alguém e preciso que você compreenda isto. Não estou delirando.

Os olhos de Alice estavam novamente vidrados e João Paulo assistiu a vermelhidão das lágrimas chegarem rapidamente aos olhos da esposa. Suas mãos voltaram a ficar geladas entre as mãos enormes dele.

– Se você precisar de tempo, eu entendo. Preciso de você.

As lágrimas rolaram. Alice não se mexia. As gotas que caiam de seus olhos pareciam ter vida. Ficaram assim por algum tempo. Suas mãos entrelaçadas e Alice estática. Todo o seu corpo estava gelado agora. O primeiro sinal de movimento foi o tremor de seus lábios. Neste momento, encarando-a, João Paulo suspirou.

– Se quiser, levo-a até lá. Aliás... – Uma ruga formou-se em sua testa. – Não preciso fazer isso, pois tenho aqui a prova.

João Paulo tirou do bolso uma corrente ensangüentada, a qual ofereceu a Alice. Ela a segurou e olhou o pingente de um Cristo crucificado. Nunca vira um crucifixo sujo de sangue, de fato. As lágrimas não paravam de rolar. João Paulo olhou para o relógio atrás da esposa. Passava de três manhã.

– Olha querida, você não precisa digerir tudo isto de uma vez, podemos... – Alice o interrompeu.

– Isso é mesmo verdade, amor? – Sua voz era baixa, mas permeada por um desespero latente. – Você fez mesmo isso?

João Paulo olhou para a esposa com carinho e, aproximando-se um pouco mais, confirmou com um aceno.

– João Paulo o que você fez? – Ela o encarava com seus cabelos desgrenhados.

– Bom, foi como eu te disse... – Alice o interrompeu novamente.

– Como você pode falar com tanta naturalidade? Se você matou mesmo essa pessoa, e eu começo a acreditar nessa possibilidade, você fez algo monstruoso...

Alice soltou suas mãos das do marido e começou a recuar. A intensidade de sua voz aumentara um pouco.

– Como pode tratar com tanta naturalidade? – Alice estava fora de si – Quem é você? Quem é você, seu monstro e o que fez com meu marido.

João Paulo levantou-se calmamente e fechou a porta da sacada. Alice, no centro da cama, olhava-o com estranheza, enquanto repetia as mesmas palavras. Então ele se sentou novamente e olhou para ela.

– Pronto, agora você pode gritar a vontade, querida. Os vizinhos não precisam saber da nossa intimidade – e voltando-se para si, pensou em voz alta. – Sempre soube que vidros à prova de som seria uma ótima idéia.

Alice olhou com horror para ele. Suas palavras agora saiam altas como nunca.

– Quem é você? Você não é o homem com quem eu me casei. O que você fez, seu monstro? O quê?

João Paulo não se mexeu, até que a esposa saltou da cama e tentou alcançar o telefone. Ele o fez antes e desligou o aparelho. Alice tornou a gritar, até que seus pulmões e suas cordas vocais não permitiram mais. E então começou a fazer perguntas, durante algum tempo. Talvez horas. O marido, entretanto, não respondia a nada.

– E agora? Vai me manter presa aqui? Como refém? Ou vai me matar, também?

João Paulo olhou com assombro para a esposa quando ela soltou a última pergunta. Seus olhos que haviam se mantido compenetrados, de repente estavam marejados. Ele se levantou e foi em direção a Alice, que agora estava do outro lado do quarto, sentada próxima à sacada.

– Eu jamais te machucaria, Alice. Jamais! Eu a amo, ouviu bem. Eu a amo.

Alice mal olhava para ele. Seus pequenos olhos estavam vermelhos. As lágrimas já haviam secado, assim como sua voz se esvaia a cada sílaba proferida. Ele se aproximou e se sentou bem defronte a ela. Com os olhos fixos na esposa, tentou alcançar as mãos pequenas que antes o convidaram a um abraço. Alice cruzou os braços com força, recusando-se a permitir que ele a tocasse.

– Eu amo você, Alice – havia sombra em sua voz. – Eu amo você demais.

Alice ainda olhava para fora da sacada. Nada se movia na rua.

– Olhe para mim, por favor.

Alice voltou sua cabeça para João Paulo e afrouxou as mãos que estavam tão bem seguras sobre o peito.

– O que você fez? – Disse pausadamente.

João Paulo manteve a cabeça baixa.

– Eu o matei, Alice – e olhando diretamente para a esposa continuou. – E não me arrependo.

O casal encarou-se. Nenhum dos dois sorria. Um facho de luz os iluminou quando um carro solitário atravessou a rua em alta velocidade. Nenhum dos dois desviou o olhar. João Paulo estendeu a mão até a esposa e dessa vez alcançou a mão de Alice.

– Quem? – Alice perguntou com frieza.

– Aquele juiz.

– Hum...

– Não me arrependo, Alice.

– Eu sei – as lágrimas voltaram a brotar de seus olhos. – Eu não posso redimi-lo, João Paulo.

O marido aparou algumas lágrimas do rosto da esposa.

– Eu sei, minha querida. Não quero que me redima. Só quero que seja minha esposa, como sempre foi.

– Você sabe que isto não é justo.

– Sei e sei também que não poderia pedir a mais ninguém.

João Paulo aproximou-se mais de Alice. Ela o abraçou. O ombro da camisa do promotor logo ficou ensopado, enquanto ele a acariciava.

– Preciso de você, Alice.

Alice soltou-se do abraço e olhou diretamente para o marido.

– Também preciso de você.

– Lembra-se, querida? Na saúde e na doença...

– Na alegria e na tristeza...

– Até que a morte...

– ... até que a morte nos separe.

Os dois levantaram-se e caminharam de mãos dadas até a cama. João Paulo beijou-lhe a testa e segurou sua mão. Alice fechou os olhos contornados pelos cílios ainda úmidos. Dormiram abraçados. Cúmplices um do outro. Os raios de sol começavam a tocar a superfície azulada do quarto.


Conto elaborado entre Abril e Maio de 2010.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Meu conto 2

conto
Perfect timing
Por Juliana S. Marton

Ela estava distraída quando seu telefone tocou naquele final de tarde e o atendeu sem sequer dar atenção ao número que o identificador apontava na tela.

– Olá. – Disse ela alegremente, enquanto repassava as falas da apresentação da noite. Mas, quem falou do outro lado da linha não tinha uma voz jovial.

– Então, é hoje à noite? – O homem falava com pesar.

Lisa mesmo assim não esboçou alteração alguma em sua expressão e se alguém a observasse segurando o telefone imaginaria que a atriz falava com alguém muito próximo e importante. Ela desenhou um sorriso ao respirar, e num tom de voz sólido, porém quase inaudível, respondeu:

– É claro, querido. Até logo. – Lisa desligou o telefone com toda a delicadeza que uma moça poderia expressar. E então, voltou a repassar as falas do script.

Ao proferir cada palavra ali descrita, a atriz gesticulava e interpretava. Sentia-se como que no palco e logo o pano subiria de fato diante dela. Em seu camarim bem arrumado podiam-se ver duas belas poltronas estofadas com um tecido grosso e muito macio de um vermelho forte. Na verdade, tudo no cômodo trazia detalhes em vermelho e dourado.

Filha de atores consagrados, o caminho através das luzes foi traçado para a moça desde que nasceu. Seu talento, entretanto, não permitiu que muitos atrevidos questionassem o porquê de sua permanência nos palcos. Uma diva. A rainha dos salões e dos palcos. Amada e aclamada pelo público sedento por novas narrativas.

Naquela noite, Lisa encarnaria Sibyl, na adaptação da obra de Oscar Wilde. Em uma narrativa cheia de personagens masculinos fortes era de se esperar que ela se tornasse apenas mais uma das atrizes coadjuvantes. Contudo, a simples menção de sua presença no palco enlevava o humor da platéia e todas as luzes cediam a ela.

Repassando as falas, Lisa foi interrompida por uma leve batida na porta de seu camarim. Envolta em um robe fino e com os cabelos louros meio desgrenhados em um coque, Lisa ergueu os olhos quando Anete, a maquiadora da companhia, entrava no cômodo iluminado.

– Boa noite, querida. Repassando as falas mais uma vez? – Perguntou Anete.

– Oh, Anete. Estava aqui relendo esse script. Mas, cansei-me disso – disse agudamente deixando de lado as folhas e olhando diretamente para a maquiadora. – Pensei que não viesse mais. Quero alguém para conversar. Aquelas caras enrugadas de todos deram-lhe muito trabalho esta noite, ou somente as olheiras das ressacas acumuladas de Estevão é que a roubaram de mim por todo esse tempo?

Anete riu.

– Nem todos eles foram agraciados com sua pele, minha querida. E então, o que vamos fazer nesse rostinho hoje?

Anete era uma jovem senhora. Uma profissional em maquilagem e penteados que acompanhava a Companhia desde que fora fundada pelos pais de Lisa há 25 anos. Sabia tudo de todos, mas não era mulher do tipo que comenta a vida alheia. Todos a tinham como uma orientadora e ninguém conseguia fazer segredos diante de sua figura tão maternal. Ninguém menos Lisa, que conseguia extrair até os segredos mais ocultos e sujos de todos os membros da Companhia.

– Você decide, Anete. Leu O Retrato de Dorian Gray muito antes de mim. Como você imaginava a doce Sibyl? – Disse Lisa com meiguice. – Faça de mim a sua Sibyl.

Anete com um sorriso afável abriu a maleta marrom onde levava seu aparato de transformação. Diante do desafio que Lisa havia lhe imposto, seu sangue fervilhava e ela começou a buscar em sua memória os traços que esboçara em sua mente ao ler a obra há tempos.

– Verei o que posso fazer, minha querida.

As duas entraram em uma conversa sem fim, da qual Anete mal se dava conta do teor. A maquiadora estava vidrada em atender ao desejo de Lisa e não se atentava muito bem às perguntas que a atriz lhe fazia enquanto a produzia.

Todas as noites de apresentação eram da mesma forma. Lisa era a última da lista a ser maquiada e penteada. Quando Anete entrava em seu camarim, as portas adquiriam ouvidos e as janelas olhos, pois segredos eram mencionados como fatos irrelevantes ali.

– Pronto, minha querida. O que você acha? – Questionou Anete ao dar o último retoque no canto do olho direito e pegar um espelho para que a jovem atriz pudesse olhar sua nova identidade. – Como me saí?

– Anete! – Os olhos de Lisa perscrutavam cada detalhe que ela havia adquirido durante aqueles minutos, inerte. – Anete, você me transformou. Agora eu sou Sibyl, de fato. Você é uma artista, Anete. Uma verdadeira artista.

Anete não conseguia conter a satisfação ao ouvir as palavras que Lisa proferia. Ninguém mais na Companhia valorizava tanto seu trabalho. Ela se sentia inebriada.

– Você é muito gentil, minha querida. Precisa de ajuda para se vestir?

– Hoje não, Anete. O vestido é bem simples e já estou usando o espartilho. Você já fez muito por mim esta noite.

– Você é mesmo um encanto. Agora vá e arrebate a todos com sua beleza e doçura, Sibyl.

Anete beijou docemente a testa de Lisa e se retirou lentamente do camarim de sua favorita. Quando a porta encostou, a atriz levantou-se da poltrona e caminhou até a porta. Quase que imediatamente uma batida abafada ecoou na saleta. Lisa girou a chave duas vezes e caminhou até a porta de vidro que dava para os fundos do teatro. Um homem grande e meio sujo emergiu da sacada.

Perfect timing – Lisa disse tornando as costas para o homem e indo sentar numa cadeira dourada que estava posta bem em frente à penteadeira. – Anete acaba de sair.

– Eu estava ouvindo – a voz parecia preencher os espaços do camarim, apesar de baixa. – E então, quando?

Lisa ajeitava os cachos de algumas madeixas que Anete havia penteado, ignorando a presença do homem.

– Eu já respondi essa pergunta, creio – Lisa dizia com uma voz doce. O homem imenso parecia um rato acuado em uma gaiola cheia de gatos famintos. Os olhos da moça refulgiram quando ela olhou para ele através do espelho e completou a frase – Fique aqui até a segunda troca. Siga o combinado.

Ela se levantou da cadeira e deixou o robe cair delicadamente ao longo de seu fino corpo, dirigindo-se até o cabideiro. Pegou um dos vestidos ali dependurados e passou a vesti-lo. O homem, no canto da saleta, não se atrevia a olhar para ela.

– Venha até aqui e me ajude a fechá-lo, por favor – a voz da atriz era penetrante.

O homem foi até ela e fechou o longo zíper que se estendia ao longo das costas.

– Cuidado com o fecho, querido. Não vai querer estragar essa bela peça produzida especialmente para esta noite de glória.

– Perdoe-me... – Redargüiu o homem austero. – Minhas mãos são grandes demais para coisas tão delicadas.

– Claro. Só espero que sua rudeza não se manifeste no momento em que precisarei de toda sua cautela, querido.

Neste momento, com o zíper já fechado, Lisa virou-se para o homem e olhou bem no fundo de seus olhos redondos e claros. Os olhos da dama estavam vidrados. O homem estremeceu e virou sua cabeça, voltando para o canto escuro da saleta.

– Vejo-o mais tarde, querido – disse ela lançando um beijo no ar em direção ao homem amedrontado. – Tranque a porta, está bem – e se virando, saiu do camarim deixando para trás apenas resquícios de seu perfume.

Estevão estava parado defronte à porta do camarim quando Lisa saiu. Bêbado e inquisidor, tomou a atriz pela cintura e olhando-a firmemente, indagou:

– Com quem você estava conversando, doçura? – Seu hálito de álcool envolveu o ar ao redor de Lisa, o que não parecia afetá-la. Ela o beijou suavemente na face e respondeu enquanto ele, atordoado, soltava-a de seu forte abraço.

– Repassando falas, querido, como sempre faço. – Lisa segurou-o e começou a caminhada até o palco. – Vamos, a peça já vai começar. Logo o pano subirá e seremos novamente os protagonistas dos sonhos daquele público que nos idolatra. Venha, querido.

Estevão foi andando ao lado da atriz como uma criança. Logo chegaram ao backstage do teatro, onde todos já aguardavam para iniciar a representação. Devido à relativa idade, Estevão dessa vez não seria o protagonista da peça, mas a ele ficara incumbido o papel de Lorde Henry.

O pano subiu, e a platéia ovacionou os atores. No palco, um cenário que remetia a um estúdio de pintura. E lá estava Estevão, como Lorde Henry. Sentado num divã, com uma nuvem de fumaça ao redor de si. A peça desenvolveu-se normalmente, até que Lisa entrou em cena.

– Mamãe, mamãe, estou tão feliz! – a fala da atriz ecoava pelo salão enfeitiçado pela interpretação que ela fazia de Sibyl Vane.

Os atos seguintes foram marcados por suspiros e gritinhos de horror. Uma senhora na ala superior chegou a se sentir mal quando a pobre Sibyl foi encontrada morta no assoalho do camarim. O acontecimento que mudou o rumo da peça e levou todos a conhecerem o verdadeiro lado negro do protagonista. Após a cena do assassinato de Basil Halward, o pano fechou e houve um curto intervalo.

Com todos de volta ao grande saguão, o pano abriu novamente e a platéia em silêncio contemplou a cena que se desenvolvia ali. Um corpo jazia no centro do palco. Um punhal brilhava ao seu lado. A princípio, alguns desavisados acreditaram que aquilo fazia parte da peça. Mas, outros fãs da obra de Wilde estranharam o acontecimento. Não havia mortes àquela altura da história.

Quando Lisa entrou em cena chorando e gritando, todos começaram a perceber que algo estranho desenvolvera-se ali. Mas, quem era aquele amontoado de trapos e sangue jogado no tablado incólume, ninguém poderia responder.

– O que é isso? – Estevão surgiu de uma passagem à direita do palco e o burburinho na platéia começava a crescer. – Quem é, doçura? Quem é este aí?

Os olhos de Lisa estavam marejados. A maquiagem perfeita que Anete fizera já não esbanjava esplendor. Com o punhal em mãos e as vestes embebidas em sangue ela se levantou em um impulso e se atirou nos braços de Estevão.

– Não, não... Veja quem é. Olhe o que fizeram a... Não posso acreditar... Não posso...

Estevão arrancou o punhal prateado da mão de Lisa. A Companhia toda já estava no palco a essas alturas. A cena tornou-se ainda mais tosca quando, colocando Lisa de lado, Estevão abaixou-se e viu ali Anete enrolada em uma capa negra, suja e ensangüentada. Jamais a haviam visto usando vestes tão indignas de sua personalidade amável.

– Oh! É Anete, a maquiadora. Como? Por quê? – Todas as palavras soavam inapropriadas diante da situação. Estevão, bêbado e atordoado não conseguia digerir as informações.

– Minha querida Anete... – Lisa debruçava-se novamente sobre o corpo frio da mulher. – Quem pode ter feito isso, quem?

Os atores estavam chocados. Alguns, mais ávidos, corriam de um lado para o outro tentando encontrar pistas. Outros levantavam falsas memórias numa tentativa de encontrar o malfeitor. Algumas mulheres, mais frágeis, choravam compulsivamente diante da figura inerte do último membro que restara da velha guarda da companhia. Outras, conhecidas por sua frieza, olhavam com desconfiança para todos, elaborando teorias conspiratórias em suas mentes.

O sangue ainda escorria da poça que envolvia Anete. Lisa continuava debruçada sobre a adorada amiga, chorando e murmurando palavras ininteligíveis aos ouvidos mais aguçados. Sua tristeza era profunda. Alguém na platéia havia ligado para a polícia, quando a encenação macabra começou. Alguns agentes surgiram no teatro. Uns vinham do backstage, outros cobriam o saguão principal, e ainda outros já cercavam os camarotes cheios de ricaços abobalhados.

Fechou-se o pano.

Lisa foi arrancada de cima de Anete. Agora num misto de lágrimas e sangue, a atriz era levada até uma cadeira onde colocaram-na sentada e um policial gentil começou a perguntar coisas a ela.

– Eu a vi... – Sua fala doce, fora substituída por um tom amargo. – Eu a vi...

– A senhorita viu a vítima ser apunhalada? – O policial estava visivelmente transtornado por ter que fazer perguntas à dama em choque – Poderia identificar o agressor?

O brilho singular passou pelo olhar de Lisa quando ela voltou seus olhos diretamente para o policial. A doçura voltava à voz e suas palavras agudas tornaram-se sensíveis aos ouvidos do homem.

– Você é muito doce. Mas, eu não poderia identificar um possível agressor, já que não vi Anete ser apunhalada... Eu a vi... largada no centro do palco. Só isso e nada mais. – Virou então seu rosto e voltou a chorar. O momento de lucidez que o policial presenciara parecia ser apenas uma lembrança remota.

– Obrigado. Não vou incomodá-la mais – o agente redargüiu com gentileza, e retirando do bolso de sua jaqueta um lenço, entregou a ela. – Se a senhorita precisar de qualquer coisa, pode reportar-se diretamente a mim. Vou encarregar alguém de lhe trazer um copo com água e a acompanhar até seu camarim.

Ela olhou para o homem que se afastava com carinho e retribuiu a delicadeza com um pequeno sorriso. Ficou sentada, chorando por alguns minutos, quando um jovenzinho aproximou-se e disse agitado:

– Só pode ser para a senhora – olhou para Lisa – O tenente mandou entregar-lhe isto, com os seus cumprimentos e me pediu que a acompanhasse de volta ao seu camarim e me certificasse de que está tudo bem antes de deixá-la entrar – o rapaz retomou a fala quando Lisa olhou para ele. – Vou montar guarda em frente à saleta. Nada irá incomodá-la, nem mesmo eu, senhora.

A atriz olhou com doçura para o rapazote e se levantou do banco.

– Muito obrigada, querido.

Os dois caminharam lado a lado. Lisa destrancou a porta e o jovem entrou desconfiado, revistando todos os cantos da saleta e o banheiro. Dando-se por vencido, convidou a atriz para entrar.

– Estarei aqui – falou confiantemente olhando para ela e se virando, colocou-se em seu posto.

Lisa fechou a porta com um sorriso de satisfação. Virando-se, começou a despir as pesadas roupas. Vestiu o fino robe que estava delicadamente dobrado sobre sua poltrona. Caminhou até o banheiro, onde havia uma banheira. Ligou a torneira e aguardou. Colocou algo que fizesse com que espumasse e entrou na água.

Um homem mal encarado e meio sujo emergiu da porta que estava entreaberta. Lisa sem abrir os olhos, sorriu levemente. Depois, olhando diretamente para o homem amedrontado, disse com sua voz doce:

- Perfect timing, querido.

Conto elaborado entre Fevereiro e Abril de 2010.