sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Reportagem - Setembro 2008

tabagismo
Terceira maior causa de morte evitável no mundo
Inca estima que, somente no Brasil, sete pessoas morram a cada dia por doenças provocadas pelo tabagismo passivo
Juliana S. Marton
O Dia Nacional de Combate ao Fumo é comemorado no dia 29 de agosto, e tem como objetivo principal alertar à população sobre os riscos do tabaco. Todos os anos, um tema é escolhido para a campanha promovida pelo Governo Federal, que este ano é “Ambientes 100% Livres de Fumo: um direito de todos”. A campanha tem como alvo esclarecer os malefícios do cigarro e a necessidade de mudança da Lei Federal 9294/96, que proíbe o fumo em locais coletivos fechados, mas que ainda autoriza os chamados “locais para fumantes”.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) o tabagismo é a principal causa de morte evitável em todo o mundo. Os efeitos do cigarro à saúde se referem diretamente ao tabagismo, assim como a inalação de fumaça ambiente, se refere ao chamado tabagismo passivo. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que sete brasileiros morram a cada dia por tabagismo passivo. A OMS afirma que esta é a terceira maior causa de morte evitável do mundo. Todavia, somente há pouco tempo as campanhas contra o tabaco passaram a focar àqueles que fumam passivamente.
De acordo com a pneumologista, Fernanda Miranda de Oliveira, a abordagem que foca os problemas causados pelo fumo em pessoas não-fumantes, varia a cada caso. Para Fernanda, cada fumante é individual e deve ser tratado de maneira distinta. Desse modo, segundo a especialista, campanhas com tal tonalidade podem ou não surtir efeito. “Essa abordagem funciona muito com gestantes, pois elas têm consciência de que a medicina provou a maneira maléfica com que o cigarro influencia tanto na formação do feto, quanto no desenvolvimento do recém-nascido”, exemplifica.
O tabagismo passivo faz tanto mal quanto, senão mais do que, o tabagismo ativo. Já que, segundo pesquisadores da área, os fumantes ativos são protegidos pelo filtro que é obrigatório nos cigarros, enquanto os fumantes passivos não têm esta proteção, ficando, deste modo, à mercê das substâncias tóxicas que são inaladas através da fumaça do cigarro. Pesquisas revelaram que crianças que convivem com pelo menos um fumante em casa, têm grandes riscos de desenvolver asma, bronquite, pneumonia e infecções do ouvido médio.
A Pesquisa Global de Tabaco na Juventude, que foi conduzida pela OMS em parceria com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), analisou estudantes da faixa etária de 13 a 15 anos em 132 países, entre 1999 e 2005. Os resultados mostram que aproximadamente 44% dos jovens estão expostos diariamente à fumaça do cigarro em suas casas, e que 76% deles apóiam a proibição do consumo de cigarro em locais públicos. Contudo, os índices apontam que cem mil jovens começam a fumar a cada ano, dentre eles, 80 mil vêm de países pobres.
O tabagismo é também intimamente relacionado à economia dos países. No Brasil, a indústria do tabaco deve faturar 2,6 bilhões de dólares somente neste ano de 2008 com a exportação de fumo, que desde 1993 coloca o país no primeiro lugar entre os fornecedores mundiais do produto. As políticas de combate ao fumo, dessa forma, perdem-se mediante ao lucro que as grandes indústrias têm com a morte das pessoas. De acordo com a OMS, o Brasil ocupa o sexto lugar no ranking de países com o cigarro mais barato.
Especialistas acreditam que a grande participação do país na indústria do tabaco influencia a população a tornar-se fumante. Há algumas décadas, as propagandas de cigarro traziam pessoas jovens, bonitas e saudáveis fumando. O inconsciente da população ficou muito tempo preso a esse imaginário, de que eles fariam parte de uma elite fumante. Atualmente, no Brasil todas as publicidades explícitas relacionadas ao tabaco foram abolidas. As embalagens de cigarro vêm com fotografias de pessoas que cederam sua imagem para servir de alerta à população.
A aposentada Delina Rodrigues, 65, que fuma desde os 16 anos de idade, afirma que falta incentivo àqueles que desejam parar com o vício. Ela admite a existência da vontade de largar o hábito, no entanto afirma também que mesmo com as coberturas e campanhas que a mídia faz, ainda falta esclarecimento sobre o processo de deixar o vício e onde se deve procurar ajuda. “É muito boa a iniciativa de colocar as fotos das pessoas que estão morrendo por causa do cigarro, isso choca as pessoas e não deixa que os jovens comecem a fumar”, afirma Delina.
Apesar da cobertura midiática que é feita acerca do assunto, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) nos países em desenvolvimento muitos fumantes desconhecem ou ignoram os riscos causados pelo tabagismo. Um estudo realizado na China descobriu que a maioria dos fumantes pensava que fumar causava pouco ou nenhum mal à saúde. Tal demonstrativo revela que a preocupação com os fumantes passivos é mínima, já que os próprios fumantes não entendem os riscos que correm quanto mais àqueles que podem provocar à saúde alheia.
Segundo a doutora Fernanda Miranda, o mais importante seria a presença de programas de prevenção nas redes municipais, estaduais e federal de saúde. A especialista garante que com campanhas voltadas para o fumante, como a colocação de fotografias de pessoas debilitadas pelo consumo do tabaco em carteiras de cigarro, haverá um impacto maior na sociedade. De acordo com ela, nas duas últimas décadas houve uma queda no número de fumantes. “No passado, de 32 a 35% da população adulta brasileira era fumante, hoje esse número caiu para 20%”, afirma.
Peritos na área acreditam que o tabagismo tende a aumentar ao longo dos anos, e por isso, as campanhas acerca do assunto devem ser constantes. Além disso, pesquisas mostram que a abordagem deve ser chocante, visto que campanhas como a publicação de fotografias de pessoas acamadas pela ação do cigarro diminuem o desejo de novos fumantes consumirem o tabaco. No Dia Nacional de Combate ao Fumo, todos os estados brasileiros promovem ações de auxílio e esclarecimento sobre os prejuízos do consumo.

Reportagem elaborada durante a disciplina Laboratório de Jornal Impresso 1, em Setembro de 2008.